Eram duas amigas tão próximas e tão parecidas que
qualquer observador desavisado pensaria serem irmãs. Inseparáveis. Vestiam
roupas parecidas, cortavam o cabelo da mesma forma. Suas personalidades, no
entanto, eram opostas, e este talvez fosse o seu maior elo. Elas eram
complementares.
Uma era inteligente, extrovertida, dona de uma
sinceridade até exagerada. A outra era um tipo meigo. Quieta, dissimulada,
silenciosa. A primeira via o mundo e as pessoas como coisas que estavam ali
para serem provadas, usufruídas, sem dramas ou complicações. Já a segunda
procurava não se arriscar, guardando na segurança de seus segredos os desejos
que imaginava ter.
Essa falta de coragem acabou por levá-la a uma
vida monástica, solitária. Vinte e tantos anos e nenhum namorado. Virgem! Nunca
um beijo, um carinho, uma declaração de amor. Roia a ansiedade e o desespero
enquanto assistia à alegre sucessão de amizades e amores da amiga, esta sempre
bem acompanhada, risonha, feliz.
Por um destes caprichos do destino, aconteceu um
dia em que as duas se interessaram pelo mesmo homem. Não que fosse grande
coisa, esse homem. Não que fosse o cara certo para qualquer uma das duas. Mas
essas coisas são assim mesmo, e lá estava o homem diante das duas moças, e lá
estavam as duas moças, cada uma a seu modo, oferecendo algo ao homem. Que só
tinha olhos para uma delas. E que só podia ter olhos para uma delas.
Ele não teve sequer um segundo de dúvida. Aceitou
com prazer o copo meio cheio oferecido pela moça extrovertida, preso por um
encantamento duradouro.
Tão encantado que nem mesmo percebeu o que acontecia com a outra. E, de qualquer forma, perceber não teria mudado nada. No fundo, no fundo, era só uma questão de conveniência para ela. Ou não. Talvez ela tivesse tentado se convencer de que gostava dele por pura necessidade de gostar de alguém. Ou talvez ela tenha gostado mesmo dele sem nem saber disso. Seja como for, ninguém poderia imaginar que, ao ver os dois juntos, ela fosse se sentir como quem tivesse sido atropelada por um rolo compressor.
Tão encantado que nem mesmo percebeu o que acontecia com a outra. E, de qualquer forma, perceber não teria mudado nada. No fundo, no fundo, era só uma questão de conveniência para ela. Ou não. Talvez ela tivesse tentado se convencer de que gostava dele por pura necessidade de gostar de alguém. Ou talvez ela tenha gostado mesmo dele sem nem saber disso. Seja como for, ninguém poderia imaginar que, ao ver os dois juntos, ela fosse se sentir como quem tivesse sido atropelada por um rolo compressor.
Quis se vingar. Ficou em casa como bicho
enlouquecido por meses até resolver agir. Comprou uma arma e tentou matá-lo com
três tiros pelas costas. Para sorte dele, ela era ruim de pontaria e nenhum dos
tiros atingiu algum órgão vital. A confusão foi grande, mas como tudo na vida,
passou logo. Entre sopinhas e curativos, ele está se recuperando aos poucos. Às
vezes recebe a visita da mocinha extrovertida, e nestes dias se esbalda de
prazer e alegria.
Ela cumpre pena por tentativa de homicídio. Dizem
que, na cadeia, ela começou a se corresponder com um sujeito sangue-bom da
malandragem, hóspede do Cadeião de Pinheiros. Acredita que, pela primeira vez
na vida, tem motivos para ser feliz. Pra você ver como o ser humano é feliz em
qualquer situação quando está bem disposto...
Nenhum comentário:
Postar um comentário