sexta-feira, 25 de abril de 2014

Noite Na Taberna - Trechos Macário



MACÁRIO

Segundo Episódio

Na Itália
(Um vale, montanhas à esquerda – Um rio torrentoso à direita... .)


Macário (Cismado) – Morrer! Morrer! Quando o vinho do amor embebeda os sentidos, quando corre em todas as veias e agita todos os nervos... , parece que esgotou-se tudo. Amanhã não pode ser tão belo como hoje. E acordo do sonho, ver desfeita uma ilusão! Nunca!

(Mais longe, sentado num rochedo á beira do rio, está Penseroso cismando.)

Penseroso – (...) A solidão tem segredos amenos para quem sente. O coração do mancebo é como essas flores pálidas que só abrem de noite, e que o Sol murcha e fecha. (...) No silêncio sinto minha alma acordar-se embalada nas redes moles do sonho. É tão doce sonhar, para quem ama! (...).

Macário (Passando.) – Penseroso! Boa noite, Penseroso! Que imaginas tão melancólico?

Penseroso – Boa noite, Macário! Onde vais tão sombrio?

Macário (Sombrio.) – Vou morrer.

Penseroso – Eu sonha em amor!

Macário – E eu vou morrer!

Penseroso – Tu brincas. Vi um sorriso nos teus lábios.

Macário – É um sorriso triste, não? Eu to juro pela alma de minha mãe, vou morrer.



(...)
Penseroso – Que tens? Cambaleias. Está ébrio?

Macário – Ébrio sim! Ébrio de amor... de prazer. Aquela criança inocente embebedou-me de gozo. Que noite! Parece que meu corpo desfalece. E minha alma absorta de ternura só tem um pensamento: morrer!

Penseroso – Amar e não querer viver!

Macário – Ela é muito bela. Eu vivi mais nesta noite que no resto de minha vida. Um mundo novo se abriu ante mim. Amei.



(...)

Penseroso – E é tão doce amar! Eu amei, eu amo muito. Sabe Deus as noites que me ajoelho pensando nela!... A brisa bebe meus suspiros e minhas lágrimas silenciosas e doces orvalham meu rosto.

Macário – Oh! O amor! E por que não se morre de amor! Como uma estrela que se apaga pouco a pouco entre perfumes e nuvens cor-de-rosa... (...).

Penseroso – (...) Ousando a medo suspirar seu nome! Esperando a noite muda para contá-lo a noite vagabunda!

Macário – Morrer em uma noite de amor! (...)



* * *

Macário – Que idéia rola no teu cérebro inflamado, meu poeta. (...) por que tua cabeça se inclina ao peso dos pensamentos?

Penseroso – E, contudo eu amei-a! Eu amei tanto... Sagrei-a no fundo da minha alma a rainha das fadas, e ressumbrei nela o anjo misterioso que me havia conduzir adormecido no seu batel mágico a um mundo maravilhoso de amores divinos.

Macário (...) – Tenho pena de ti. Mas consola-te. Que valem as lagrimas insensatas? Todas elas são assim. Eu também chorei mas, como as gotas que porejam da abobáda escura das cavernas, essas lágrimas ardentes deixaram uma crosta de pedra no meu coração. (...).

Penseroso (...) Se tu soubesse no que penso e no que tenho pensando! Enquanto eu falo a minha alma desvaira, e a minha febre devaneia. Sonhei sangue... Em tudo! (...) depois minha cabeça escureceu-se... Pensei no suicídio... . Macário, Macário, não te rias de mim! Como o vagabundo, que se debruça sobre um precipício sem fundo, senti a vertigem regelar meus cabelos hirtos e um suor de medo banhar minha fronte... Tenho medo!... Sou um doido, Macário, eu o sei. Que longa vai essa noite! A lua avermelhada não lança luz no céu escuro; nem a brisa no ar; e uma noite de verão, ardente como se a natureza também tivesse a febre que inflama meu cérebro!... .



(...)

Macário – Talvez seja a treva de meu corpo que escureça minha alma. Talvez uma anjo mau soprasse no meu espírito as cinzas sufocadas da dúvida. Não sei. Se existe Deus, ele me perdoará se a minha alma era fraca, se na minha noite lutei embalde com o anjo como Jacó, e sucumbi. Quem sabe? – eis tudo o que há no meu entendimento. As vezes creio, espero: ajoelho-me banhado de pranto e ora; outras não creio, e sinto o mundo objetivo vazio como um túmulo.



* * *

Álvares de Azevedo; Noite na Taverna/Macário; Editora: Martin Claret; 2003. Originalmente publicado em 1855 – Obras de Álvares de Azevedo.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Naquele momento eu só podia amá-lo

O relógio da Catedral soa a terceira balada da madrugada. Encosto meu corpo na cabeceira da cama, O céu está negro, repleto de estrelas, uma meia lua prateada. O vento sopra forte, trazendo o cheiro da maresia. A minha casa está apinhada de gente. As cortesãs, os poetas, os artistas, os amantes, os boêmios. Bêbados, celebrando, cortejando, conquistando, amando, se entregando aos prazeres da vida mundana, chorando, sofrendo, pensando no suicídio. Todo este cenário me remete a mais doce melancolia.

No móvel ao lado da cama, Byron e uma vazia garrafa de vinho. Deitado em minha cama, meu doce querubim, dorme seu sono dos anjos. Após me propiciar uma noite regada de delicias inebriantes. Os traços de seu rosto são delicados, seu corpo é delineado por formas minuciosamente desenhadas. Provavelmente deva ser um dos mais belos anjos de Deus, que caído, veio se acomodar em minha cama. Meus olhos se enchem de lágrimas ao vê-lo dormindo. Meu anjo cheio de volúpia e movido à paixão. Entregue aos meus mais delirantes caprichos. Pronto para satisfazer aos meus desejos mais insanos.

Dirijo-me até a porta da varanda, o vento gélido da madruga bate em meu corpo febril e arrepio-me. Fecho meus ardentes olhos e escuto um jovem músico fazer uma canção cheia de dor e amor preencher o local. Minha alma é absorvida por cada nota daquela musica apaixonada e sofrida. Sinto as lágrimas banharem meu rosto, a febre tomar conta de meu corpo, a dor rasgar meu coração e minha alma mergulhar na mais completa escuridão. Sinto as aceleradas batidas de meu coração, sinto minha alma se debater dentro de mim, meus pensamentos confusos. A angústia me dilacera. A dor desta fez será fulminante, meu coração não suportará.

Sinto o corpo nu e quente contraindo-se contra o meu, envolvendo-me por completo. Suspirei. Mencionei dizer algo. Ele colocou-me de frente para ele. Pegou em minha mão, levando-me até a minha cama novamente. Deitou-se ao meu lado. Levou-me para junto do seu corpo, acomodando-me em seu peito. Abriu o livro de Byron, que estava sobre o móvel ao lado da cama, e passou a recitar os poemas lá escritos. Eu naquele momento só pudi simplesmente amá-lo.





sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

2 x 1 (duas pra um)


Eram duas amigas tão próximas e tão parecidas que qualquer observador desavisado pensaria serem irmãs. Inseparáveis. Vestiam roupas parecidas, cortavam o cabelo da mesma forma. Suas personalidades, no entanto, eram opostas, e este talvez fosse o seu maior elo. Elas eram complementares.
Uma era inteligente, extrovertida, dona de uma sinceridade até exagerada. A outra era um tipo meigo. Quieta, dissimulada, silenciosa. A primeira via o mundo e as pessoas como coisas que estavam ali para serem provadas, usufruídas, sem dramas ou complicações. Já a segunda procurava não se arriscar, guardando na segurança de seus segredos os desejos que imaginava ter.
Essa falta de coragem acabou por levá-la a uma vida monástica, solitária. Vinte e tantos anos e nenhum namorado. Virgem! Nunca um beijo, um carinho, uma declaração de amor. Roia a ansiedade e o desespero enquanto assistia à alegre sucessão de amizades e amores da amiga, esta sempre bem acompanhada, risonha, feliz.

Por um destes caprichos do destino, aconteceu um dia em que as duas se interessaram pelo mesmo homem. Não que fosse grande coisa, esse homem. Não que fosse o cara certo para qualquer uma das duas. Mas essas coisas são assim mesmo, e lá estava o homem diante das duas moças, e lá estavam as duas moças, cada uma a seu modo, oferecendo algo ao homem. Que só tinha olhos para uma delas. E que só podia ter olhos para uma delas.
Ele não teve sequer um segundo de dúvida. Aceitou com prazer o copo meio cheio oferecido pela moça extrovertida, preso por um encantamento duradouro.

Tão encantado que nem mesmo percebeu o que acontecia com a outra. E, de qualquer forma, perceber não teria mudado nada. No fundo, no fundo, era só uma questão de conveniência para ela. Ou não. Talvez ela tivesse tentado se convencer de que gostava dele por pura necessidade de gostar de alguém. Ou talvez ela tenha gostado mesmo dele sem nem saber disso. Seja como for, ninguém poderia imaginar que, ao ver os dois juntos, ela fosse se sentir como quem tivesse sido atropelada por um rolo compressor.

Quis se vingar. Ficou em casa como bicho enlouquecido por meses até resolver agir. Comprou uma arma e tentou matá-lo com três tiros pelas costas. Para sorte dele, ela era ruim de pontaria e nenhum dos tiros atingiu algum órgão vital. A confusão foi grande, mas como tudo na vida, passou logo. Entre sopinhas e curativos, ele está se recuperando aos poucos. Às vezes recebe a visita da mocinha extrovertida, e nestes dias se esbalda de prazer e alegria.

Ela cumpre pena por tentativa de homicídio. Dizem que, na cadeia, ela começou a se corresponder com um sujeito sangue-bom da malandragem, hóspede do Cadeião de Pinheiros. Acredita que, pela primeira vez na vida, tem motivos para ser feliz. Pra você ver como o ser humano é feliz em qualquer situação quando está bem disposto...

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A Dionisíaca

Que paradoxal é este ser que aqui escreve estas linhas, que logo vão se justificar. Sim, o desejo de viver a vida ate a exaustão é tão intenso, quanto o desejo de logo encontrar o fim da linha, os excessos estão presentes, tanto quanto a escassez. A busca incansável de algo que justifique a minha condição de existir, e algo que crie o tesão necessário para que assim eu permaneça, continua. A eterna busca pela satisfação daquilo que jamais será satisfeito, continua regendo a minha vida, como um grande maestro a reger sua orquestra bachiana.

O mágico inconformismo diante da vida que me é oferecida continua a me mover pelos desconhecidos caminhos do excesso, da luxuria, dos doces entorpecentes, onde percorro pelos campos das intensas, embriagantes e viciantes paixões, plantando e colhendo prazeres e decepções, mas sem jamais cair na tentação de cometer o pecado de fazer uma loucura sem pouca importância. E por falar em tentações, admito que assim como Wilde, eu resisto a tudo menos as tentações e carrego a premissa wildiana de que a melhor maneira de nos livrarmos de uma tentação é cedendo a ela.

Espírito romanesco. Eterna apaixonada pelos diversos espetáculos que a natureza nos apresenta, o por do sol que pode ser visto do alto de uma ponte, que corta uma rodovia cinza e movimentada, cortada por um imenso rio poluído de águas marrom. Horas perdidas diante da Lua Cheia, que pode ser vista de um terreno descampado no meio da selva de pedra. Espírito, que alcança a alma do universo, diante da contemplação do oceano.

Dizem que eu sou a versão feminina do “herói byroniano”, aquele que por algum motivo não pode desfrutar de um grande amor, sai pelo mundo, desfrutando das mais variadas devassidões e tudo aquilo que a vida tem a lhe oferecer e está fadado á fazer toda aquela que se apaixona por ele cair em ruína, assim como toda aquela no qual ele corresponde a este amor, cair em desgraça.

Estão certos. Ate o momento, não houve uma circunstância que possa ter mudado este quadro, e o que acho disso, é que vou morrer sozinha, sim como os “heróis byronianos”, em algum quarto de quinta categoria, criando escritos melancólicos, satiros, ácidos, romanescos, com um humor negro e azedo, mas delicioso. Esta certeza esta comigo desde da infância, e se materializou quando passei a ler os prazerosos romances do século XIX, já com suas pitadas de realismo ou atolados no ultra-romantismo, quando sem a menor das intenções me identificava com o personagem central, que na maioria das vezes não tem o melhor dos finais, chegando a se entregar à morte ou ate mesmo indo a sua procura, mas sempre na solidão.

Sou perfeitamente capaz de compreender as mensagens que a vida me deixa, por intermédio de cada novo amante que chegue e parte.

Mas enquanto a arte puder fazer parte da minha vida, em uma obra do Renascimento ou do Expressionismo, em uma peça de Shakespeare,  em um poema de Byron e Rimbaud, em um romance de Balzac ou Sthendal, nenhum medo poderá me fazer parar de procurar por algo que possa saciar o insaciável, e enquanto eu puder me deliciar na filosofia de Nietzsche, eu vou contestar, e vou querer responder a todas as questões, em busca daquilo que Kafka diz que não tem sentindo.

Porque se a vida pode ao menos me dar a felicidade de morrer cercada da arte que sempre foi meu refugio e nos braços daquele que nunca deixou de ser o meu parceiro maior: a solidão.

Com afeto