Que paradoxal é este ser que aqui escreve estas linhas, que logo vão se justificar. Sim, o desejo de viver a vida ate a exaustão é tão intenso, quanto o desejo de logo encontrar o fim da linha, os excessos estão presentes, tanto quanto a escassez. A busca incansável de algo que justifique a minha condição de existir, e algo que crie o tesão necessário para que assim eu permaneça, continua. A eterna busca pela satisfação daquilo que jamais será satisfeito, continua regendo a minha vida, como um grande maestro a reger sua orquestra bachiana.O mágico inconformismo diante da vida que me é oferecida continua a me mover pelos desconhecidos caminhos do excesso, da luxuria, dos doces entorpecentes, onde percorro pelos campos das intensas, embriagantes e viciantes paixões, plantando e colhendo prazeres e decepções, mas sem jamais cair na tentação de cometer o pecado de fazer uma loucura sem pouca importância. E por falar em tentações, admito que assim como Wilde, eu resisto a tudo menos as tentações e carrego a premissa wildiana de que a melhor maneira de nos livrarmos de uma tentação é cedendo a ela.
Espírito romanesco. Eterna apaixonada pelos diversos espetáculos que a natureza nos apresenta, o por do sol que pode ser visto do alto de uma ponte, que corta uma rodovia cinza e movimentada, cortada por um imenso rio poluído de águas marrom. Horas perdidas diante da Lua Cheia, que pode ser vista de um terreno descampado no meio da selva de pedra. Espírito, que alcança a alma do universo, diante da contemplação do oceano.
Dizem que eu sou a versão feminina do “herói byroniano”, aquele que por algum motivo não pode desfrutar de um grande amor, sai pelo mundo, desfrutando das mais variadas devassidões e tudo aquilo que a vida tem a lhe oferecer e está fadado á fazer toda aquela que se apaixona por ele cair em ruína, assim como toda aquela no qual ele corresponde a este amor, cair em desgraça.
Estão certos. Ate o momento, não houve uma circunstância que possa ter mudado este quadro, e o que acho disso, é que vou morrer sozinha, sim como os “heróis byronianos”, em algum quarto de quinta categoria, criando escritos melancólicos, satiros, ácidos, romanescos, com um humor negro e azedo, mas delicioso. Esta certeza esta comigo desde da infância, e se materializou quando passei a ler os prazerosos romances do século XIX, já com suas pitadas de realismo ou atolados no ultra-romantismo, quando sem a menor das intenções me identificava com o personagem central, que na maioria das vezes não tem o melhor dos finais, chegando a se entregar à morte ou ate mesmo indo a sua procura, mas sempre na solidão.
Sou perfeitamente capaz de compreender as mensagens que a vida me deixa, por intermédio de cada novo amante que chegue e parte.
Mas enquanto a arte puder fazer parte da minha vida, em uma obra do Renascimento ou do Expressionismo, em uma peça de Shakespeare, em um poema de Byron e Rimbaud, em um romance de Balzac ou Sthendal, nenhum medo poderá me fazer parar de procurar por algo que possa saciar o insaciável, e enquanto eu puder me deliciar na filosofia de Nietzsche, eu vou contestar, e vou querer responder a todas as questões, em busca daquilo que Kafka diz que não tem sentindo.
Porque se a vida pode ao menos me dar a felicidade de morrer cercada da arte que sempre foi meu refugio e nos braços daquele que nunca deixou de ser o meu parceiro maior: a solidão.
Com afeto