quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Naquele momento eu só podia amá-lo

O relógio da Catedral soa a terceira balada da madrugada. Encosto meu corpo na cabeceira da cama, O céu está negro, repleto de estrelas, uma meia lua prateada. O vento sopra forte, trazendo o cheiro da maresia. A minha casa está apinhada de gente. As cortesãs, os poetas, os artistas, os amantes, os boêmios. Bêbados, celebrando, cortejando, conquistando, amando, se entregando aos prazeres da vida mundana, chorando, sofrendo, pensando no suicídio. Todo este cenário me remete a mais doce melancolia.

No móvel ao lado da cama, Byron e uma vazia garrafa de vinho. Deitado em minha cama, meu doce querubim, dorme seu sono dos anjos. Após me propiciar uma noite regada de delicias inebriantes. Os traços de seu rosto são delicados, seu corpo é delineado por formas minuciosamente desenhadas. Provavelmente deva ser um dos mais belos anjos de Deus, que caído, veio se acomodar em minha cama. Meus olhos se enchem de lágrimas ao vê-lo dormindo. Meu anjo cheio de volúpia e movido à paixão. Entregue aos meus mais delirantes caprichos. Pronto para satisfazer aos meus desejos mais insanos.

Dirijo-me até a porta da varanda, o vento gélido da madruga bate em meu corpo febril e arrepio-me. Fecho meus ardentes olhos e escuto um jovem músico fazer uma canção cheia de dor e amor preencher o local. Minha alma é absorvida por cada nota daquela musica apaixonada e sofrida. Sinto as lágrimas banharem meu rosto, a febre tomar conta de meu corpo, a dor rasgar meu coração e minha alma mergulhar na mais completa escuridão. Sinto as aceleradas batidas de meu coração, sinto minha alma se debater dentro de mim, meus pensamentos confusos. A angústia me dilacera. A dor desta fez será fulminante, meu coração não suportará.

Sinto o corpo nu e quente contraindo-se contra o meu, envolvendo-me por completo. Suspirei. Mencionei dizer algo. Ele colocou-me de frente para ele. Pegou em minha mão, levando-me até a minha cama novamente. Deitou-se ao meu lado. Levou-me para junto do seu corpo, acomodando-me em seu peito. Abriu o livro de Byron, que estava sobre o móvel ao lado da cama, e passou a recitar os poemas lá escritos. Eu naquele momento só pudi simplesmente amá-lo.





sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

2 x 1 (duas pra um)


Eram duas amigas tão próximas e tão parecidas que qualquer observador desavisado pensaria serem irmãs. Inseparáveis. Vestiam roupas parecidas, cortavam o cabelo da mesma forma. Suas personalidades, no entanto, eram opostas, e este talvez fosse o seu maior elo. Elas eram complementares.
Uma era inteligente, extrovertida, dona de uma sinceridade até exagerada. A outra era um tipo meigo. Quieta, dissimulada, silenciosa. A primeira via o mundo e as pessoas como coisas que estavam ali para serem provadas, usufruídas, sem dramas ou complicações. Já a segunda procurava não se arriscar, guardando na segurança de seus segredos os desejos que imaginava ter.
Essa falta de coragem acabou por levá-la a uma vida monástica, solitária. Vinte e tantos anos e nenhum namorado. Virgem! Nunca um beijo, um carinho, uma declaração de amor. Roia a ansiedade e o desespero enquanto assistia à alegre sucessão de amizades e amores da amiga, esta sempre bem acompanhada, risonha, feliz.

Por um destes caprichos do destino, aconteceu um dia em que as duas se interessaram pelo mesmo homem. Não que fosse grande coisa, esse homem. Não que fosse o cara certo para qualquer uma das duas. Mas essas coisas são assim mesmo, e lá estava o homem diante das duas moças, e lá estavam as duas moças, cada uma a seu modo, oferecendo algo ao homem. Que só tinha olhos para uma delas. E que só podia ter olhos para uma delas.
Ele não teve sequer um segundo de dúvida. Aceitou com prazer o copo meio cheio oferecido pela moça extrovertida, preso por um encantamento duradouro.

Tão encantado que nem mesmo percebeu o que acontecia com a outra. E, de qualquer forma, perceber não teria mudado nada. No fundo, no fundo, era só uma questão de conveniência para ela. Ou não. Talvez ela tivesse tentado se convencer de que gostava dele por pura necessidade de gostar de alguém. Ou talvez ela tenha gostado mesmo dele sem nem saber disso. Seja como for, ninguém poderia imaginar que, ao ver os dois juntos, ela fosse se sentir como quem tivesse sido atropelada por um rolo compressor.

Quis se vingar. Ficou em casa como bicho enlouquecido por meses até resolver agir. Comprou uma arma e tentou matá-lo com três tiros pelas costas. Para sorte dele, ela era ruim de pontaria e nenhum dos tiros atingiu algum órgão vital. A confusão foi grande, mas como tudo na vida, passou logo. Entre sopinhas e curativos, ele está se recuperando aos poucos. Às vezes recebe a visita da mocinha extrovertida, e nestes dias se esbalda de prazer e alegria.

Ela cumpre pena por tentativa de homicídio. Dizem que, na cadeia, ela começou a se corresponder com um sujeito sangue-bom da malandragem, hóspede do Cadeião de Pinheiros. Acredita que, pela primeira vez na vida, tem motivos para ser feliz. Pra você ver como o ser humano é feliz em qualquer situação quando está bem disposto...