O relógio da Catedral soa a terceira balada da madrugada. Encosto meu corpo na cabeceira da cama, O céu está negro, repleto de estrelas, uma meia lua prateada. O vento sopra forte, trazendo o cheiro da maresia. A minha casa está apinhada de gente. As cortesãs, os poetas, os artistas, os amantes, os boêmios. Bêbados, celebrando, cortejando, conquistando, amando, se entregando aos prazeres da vida mundana, chorando, sofrendo, pensando no suicídio. Todo este cenário me remete a mais doce melancolia.
No móvel ao lado da cama, Byron e uma vazia garrafa de vinho. Deitado em minha cama, meu doce querubim, dorme seu sono dos anjos. Após me propiciar uma noite regada de delicias inebriantes. Os traços de seu rosto são delicados, seu corpo é delineado por formas minuciosamente desenhadas. Provavelmente deva ser um dos mais belos anjos de Deus, que caído, veio se acomodar em minha cama. Meus olhos se enchem de lágrimas ao vê-lo dormindo. Meu anjo cheio de volúpia e movido à paixão. Entregue aos meus mais delirantes caprichos. Pronto para satisfazer aos meus desejos mais insanos.
Dirijo-me até a porta da varanda, o vento gélido da madruga bate em meu corpo febril e arrepio-me. Fecho meus ardentes olhos e escuto um jovem músico fazer uma canção cheia de dor e amor preencher o local. Minha alma é absorvida por cada nota daquela musica apaixonada e sofrida. Sinto as lágrimas banharem meu rosto, a febre tomar conta de meu corpo, a dor rasgar meu coração e minha alma mergulhar na mais completa escuridão. Sinto as aceleradas batidas de meu coração, sinto minha alma se debater dentro de mim, meus pensamentos confusos. A angústia me dilacera. A dor desta fez será fulminante, meu coração não suportará.
Sinto o corpo nu e quente contraindo-se contra o meu, envolvendo-me por completo. Suspirei. Mencionei dizer algo. Ele colocou-me de frente para ele. Pegou em minha mão, levando-me até a minha cama novamente. Deitou-se ao meu lado. Levou-me para junto do seu corpo, acomodando-me em seu peito. Abriu o livro de Byron, que estava sobre o móvel ao lado da cama, e passou a recitar os poemas lá escritos. Eu naquele momento só pudi simplesmente amá-lo.