sexta-feira, 26 de junho de 2009

Aliás, que dor...

Eu queria saber escrever o que não sei dizer. Contar até três e não estar velho e murcho e pronto pro chão. Nunca falo nada que presta, só sei falar do que me resta, e talvez seja por isso que preciso de certas confirmações de lealdade explícitas como um caco de vidro entre a unha e a ferida. E todos têm o seu caco.
Queria poder evitar as consternações, não por evitá-las única e simplesmente, mas por estar certo de que evitar apertos de saco só se faz com cueca larga. As coisas não podiam me arrematar de forma tão trágica. Isso não é justo nem é crônico, não pr'um diurno com cara de insone, nem pr'um noturno com sede de mamão ao leite, para alguém que bebe para ser, assim como eu, que não sou nada além de um copo e alguns sorrisos sem que eles nunca sejam suficientes para aquilo que as pessoas esperam do mundo e do céu. É algo que nunca experimentei, eu mesmo, assim, sabe? Verdadeiramente. E isso será para sempre, até amanhã de manhã, quando tudo poderia ser o que jamais foi pelo menos por duas vezes seguidas, e eu poderia olhar, parar, piscar, amar, paraíso, inferno, indeciso, chegar bem perto, me leva!, sai daqui!, me aceitar e aceitar qualquer tipo de bobagem sobre temperamentos, classes sociais, bons homens com poder, patinhas de frutos do mar ou bebidas que mudam de cor com o toque mágico do amor, ou quem sabe tudo o mais que me disserem, sem desconfiar tanto de que aquilo tudo é uma imposição da liberdade do que chamam de arte, que no fundo é como fazer parte do nada coletivo que está ali do lado da minha sinceridade e do meu atino, impregnado do que eu já não toco mais com dedos sujos nem sei mais desempenhar sem no mínimo te/me espremer à vontade, porque tenho medos e dedos demais para falar a sério sobre a morte, dedos com as palavras subtraídas do que nunca é dito, medo de virar trabalho, filosofia ou credo, medo de ser vagabundo, de nunca ter nada da terra e nem da dor, porque os dois andam sozinhos e de mãos dadas pra lá e pra cá, e de cá, nada que dê vontade de espremer de verdade, mesmo que seja mentira, e isso me fode como a um escritor de blogs.

A mentira deve ser sustentada porque a verdade não é nada que não possa ser contornada. E não dizer nada me parece de bom gosto. Gosto de não falar nada. É quando entendo que o que há de terrível na terra e no céu e nos nossos dias inventados é aquilo que não se diz, e me sinto bem e sinto que é possível não ter nada, mesmo que a morte possível seja impossível pr'uma vida atarantada de lindas mentiras trágicas. E não consigo me livrar das outras pessoas, todas as que amo e as que analiso e idealizo como um naipe de metais ou uma bancada de frutas da estação. Não que eu tenha alguma coisa contra elas, as frutas e as estações e as pessoas, não é isso, o único problema é que elas existem e eu não. E eu sei que já disse isso e que o peso está no ar, peso leve, por mais incrível que isso possa parecer ou aparecer no meu cesto de bondades proibidas pela moral que implantei em mim mesmo quando tinha que virar bicho ruim. O problema é que só penso nisso realmente bêbado, bicho bom, o que serve pra me punir por não ser nem duro nem cálido, por transitar entre vontade, bondade, ácido, cerveja e cama. E seja falando de países jamais absorvidos, seja falando de bainhas de saias ou dedos dos pés: o problema caminha e a alma se engana. E o fator da existência é o que mais me aflige. Porra, há um milhão de anos que eu sou nada e preciso de tudo. E Camus, e Kierkegaard e Radiguet, todos mortos por dois trizes falhos, por serem o que gostavam mesmo sabendo que isso não gostava muito deles. Porque, afinal, sendo eu ou não um merda, as coisas a minha volta meio que me assumem, me tiram pra dançar, um bailão traiçoeiro de pingos, gritos, lágrimas e coisas boas sem nome.

E não falar sobre isso seria o mesmo que chutar o chão.

Aliás, que dor...




"Em nome de Deus,para todos aqueles que se tornaram corpos sem vontade própria darei a paz eterna.
Amém."