ADEUS PROLONGADO
Final de ano. Suspiro de alívio
retido antes da contagem regressiva. Nunca uma data ficou tão marcada e tão
ansiada. Celebrar o ano novo, seja ele do aniversário, seja ele do ano
terrestre, dá, pelo menos pra mim, um bafejo de esperança, uma vontade de
começar de novo, embora saiba em grande parte do meu córtex que a virada do dia
ou do ano é apenas uma convenção simbólica.
Outro dia, me peguei dizendo não
sei pra quem: -“ Você sabe que nosso calendário é fruto de um decreto papal,
não sabe?”, querendo dizer que o ano novo fazemos quando de fato decidimos que
ele comece.
Embora saiba de todos os hábitos
e promessas, listas de mudanças, vontades disso e daquilo, me surpreendo com
certos requintes tais como gente que come doze uvas de joelhos no virar da
meia-noite e pede para cada uva um desejo a se cumprir a cada mês. Há quem
brigue se não comer uma sopa de lentilha ou ainda quem perca o humor se não
tiver semente de romã para começar o ano com dinheiro na carteira e nunca
faltar grana.
Já vi de quase tudo nas
“honrarias” das entradas de ano novo. Tudo em nome de se despedir do ano
anterior, de deixar pra trás o que foi de ruim, e sempre prometendo e apostando
em novos hábitos, novos sonhos, novas metas.
Eu sempre curti essa festa.
Sempre achei maravilhosa essa simbologia do novo, do zerar tudo, essa sensação
incrível de pôr um pé no porvir. Talvez por isso mesmo hoje me pego já ansioso
pra me despedir desse ano 2014.
Eu, que sempre fiquei avesso a
despedidas, sempre resisti à sensação de ficar com o adeus, sem entender muito
bem o porquê dessa coisa, me flagro super-ansioso pra me livrar de 2014. Paro
pra pensar por que, é claro, e constato o óbvio: a gente gosta de se livrar do
que não gosta.
E me lembrei de uma fala de Chico
Buarque, numa entrevista com Maria Bethania, em que ele dizia que cantar não
fazia parte das três coisas que ele mais gostava de fazer, porque o que se
gosta de viver, você não quer que acabe.
E quem dera que a gente pudesse
mesmo passar uma borracha e apagar o que se viveu como quem apaga o rascunho da
redação! Na vida não há rascunho. Esse rio que apenas corre para frente, sem
saber se há planícies mansas ou abismos a enfrentar, não nos dá a chance de
voltar ao nascedouro, de circular em torno de uma pedra, fazer uma volta e
refazer o percurso. O que está feito está feito, e o que não se fez não se tem
a chance de repetir, pois o caminho é outro, a paisagem e as circunstâncias
também. E isso, talvez, é o que me estanca ou me faz pensar que assim fiquei,
no final de ano.
Dezembros sempre foi um marco de
dor e de adeus para mim. E não só o adeus ao ano que se vai, mas inúmeros
deles. Em dezembro me despedia da escola e dos amiguinhos dali; em dezembro
entrava o vazio da longa espera para voltar ao convívio do meu grupo social nos
tempos de colégio; em dezembro vinham os balancetes das empresas e o suspense
sobre os salários, e se haveria ou não corte nas empresas no próximo ano; em
dezembro, o pior dos suspenses: a angústia da espera de Papai Noel e a dúvida
se ele iria atender ao meu sonho. Em dezembro, as chuvas sempre arrastam casas
e desabrigam milhares; em dezembro, se contam as moedas pra se tentar
presentear alguns e excluir tantos outros de sua lista de presentes e
agradecimentos; e em dezembro, nos pomos de joelhos pra agradecer a via crucis
da vida e contar as bênçãos que nela recebemos.
É sempre o ritual do adeus que
precede o novo. E acho curioso que a igreja católica tenha cunhado a celebração
do nascimento de Jesus também para dezembro, para trazer esperança aos aflitos,
que se multiplicam em progressão geométrica, independente de raça, cor ou
credo, visto que o mundo desanda.
Nunca um ano foi tão cheio de
revelações e revoltas como esse 2014 Nunca vi a televisão tão ocupada de
noticias trágicas, de escândalos familiares, financeiros, políticos, jurídicos,
amorosos e pessoais. Revejo toda essa enxurrada que assola a tantos, e choro.
Choro sem controle, choro a dor da mãe Terra tão maltratada, choro pelos bebês
abandonados em lixeiras, choro pelos abandonos nos hospitais, choro pelo
desamparo das mães que perderam seus filhos de forma trágica, por violências
incontidas, por abusos e desrespeitos, choro pela perda da harmonia e da
segurança nos lares e nos trabalhos todos. Choro de alma que caracteriza a
cicatriz que trago no peito desde tempos imemoriais e que vez por outra se
abre, sempre que a vibração da perda da esperança e da ilusão que sonhar ainda
é bom me pega desavisado.
Ah! 2014… Que ano tenso, que
tempos de reconstrução tão difíceis. Você trouxe a eleição da presidência como
sinal de mudança, e também a necessidade de mudança de credos, mudança de
atitudes, de valores essenciais, mudança de DNA, sim, para que saiamos do
egocentrismo, da ganância, da competição que modula todos os nossos sistemas,
do educacional, ao político e econômico.
Quero ousar sonhar que a
cooperação seja a tônica do ano novo. Que os lares sejam de todos e não apenas
o lugar onde a mãe se desdobra pra manter a ordem e a harmonia. Que as escolas
mostrem um novo paradigma na avaliação dos alunos, a força e o ganho da
cooperação e não o incentivo inútil e fugaz ao poder do primeiro lugar -
denominador da derrota de tantos, da sede de vingança, da opressão sem sentido,
da fundação da humilhação e da baixa auto-estima.
Ouso sonhar que o mundo que
sempre sonhei desde menina comece agora, já!- porque está muito difícil e é
longa a demora dessa passagem, como a agonia de um parto pesado. A cada dia
mais uma contração revelando mais uma avassaladora corrupção, mais uma falência
institucional, mais tantos desalentos derrubando as ilusões que sustentam
nossas instituições já tão falidas.
Como crer em justiça onde as
sentenças são previamente compradas? Como crer na capacidade de adquirir um
bem, se as instituições que controlam o curso do dinheiro estão quebrando? Como
crer num sistema criado para manter a saúde de seus segurados, se as companhias
não hesitam em deixar na mão os que mais precisam? Como crer no bem -
propriamente dito - se o mal mostra sua cara todos os dias e a toda hora,
revelando que não sabemos nos despedir de nossas ilusões?
Ainda se corre pra comprar um
carro novo e ficar preso no trânsito como qualquer outro. Ainda se corre pra
pegar as liquidações abertas e ficar com as contas penduradas nas paredes e as
compras acumuladas nos armários. Ainda se corre para se praticar a filantropia
de enviar sacos e sacos de doações para desabrigados e ver caminhões saqueados.
Quem precisa mesmo de tudo isso?
Meu olhar está cansado e as
janelas de minha alma querem se fechar sem tempo pra se abrir até que esse
prolongado adeus se finalize. E que esse adeus seja real, mais do que
simbólico, e que não precisemos de desamparos tsunâmicos pra efetivar a
concretude de que tudo passa, tal como nosso calendário e todas as ilusões que
o tempo semeia.
FELIZ ANO NOVO!!!!
