sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

ADEUS PROLONGADO

Final de ano. Suspiro de alívio retido antes da contagem regressiva. Nunca uma data ficou tão marcada e tão ansiada. Celebrar o ano novo, seja ele do aniversário, seja ele do ano terrestre, dá, pelo menos pra mim, um bafejo de esperança, uma vontade de começar de novo, embora saiba em grande parte do meu córtex que a virada do dia ou do ano é apenas uma convenção simbólica.
Outro dia, me peguei dizendo não sei pra quem: -“ Você sabe que nosso calendário é fruto de um decreto papal, não sabe?”, querendo dizer que o ano novo fazemos quando de fato decidimos que ele comece.
Embora saiba de todos os hábitos e promessas, listas de mudanças, vontades disso e daquilo, me surpreendo com certos requintes tais como gente que come doze uvas de joelhos no virar da meia-noite e pede para cada uva um desejo a se cumprir a cada mês. Há quem brigue se não comer uma sopa de lentilha ou ainda quem perca o humor se não tiver semente de romã para começar o ano com dinheiro na carteira e nunca faltar grana.
Já vi de quase tudo nas “honrarias” das entradas de ano novo. Tudo em nome de se despedir do ano anterior, de deixar pra trás o que foi de ruim, e sempre prometendo e apostando em novos hábitos, novos sonhos, novas metas.
Eu sempre curti essa festa. Sempre achei maravilhosa essa simbologia do novo, do zerar tudo, essa sensação incrível de pôr um pé no porvir. Talvez por isso mesmo hoje me pego já ansioso pra me despedir desse ano 2014.
Eu, que sempre fiquei avesso a despedidas, sempre resisti à sensação de ficar com o adeus, sem entender muito bem o porquê dessa coisa, me flagro super-ansioso pra me livrar de 2014. Paro pra pensar por que, é claro, e constato o óbvio: a gente gosta de se livrar do que não gosta.
E me lembrei de uma fala de Chico Buarque, numa entrevista com Maria Bethania, em que ele dizia que cantar não fazia parte das três coisas que ele mais gostava de fazer, porque o que se gosta de viver, você não quer que acabe.
E quem dera que a gente pudesse mesmo passar uma borracha e apagar o que se viveu como quem apaga o rascunho da redação! Na vida não há rascunho. Esse rio que apenas corre para frente, sem saber se há planícies mansas ou abismos a enfrentar, não nos dá a chance de voltar ao nascedouro, de circular em torno de uma pedra, fazer uma volta e refazer o percurso. O que está feito está feito, e o que não se fez não se tem a chance de repetir, pois o caminho é outro, a paisagem e as circunstâncias também. E isso, talvez, é o que me estanca ou me faz pensar que assim fiquei, no final de ano.
Dezembros sempre foi um marco de dor e de adeus para mim. E não só o adeus ao ano que se vai, mas inúmeros deles. Em dezembro me despedia da escola e dos amiguinhos dali; em dezembro entrava o vazio da longa espera para voltar ao convívio do meu grupo social nos tempos de colégio; em dezembro vinham os balancetes das empresas e o suspense sobre os salários, e se haveria ou não corte nas empresas no próximo ano; em dezembro, o pior dos suspenses: a angústia da espera de Papai Noel e a dúvida se ele iria atender ao meu sonho. Em dezembro, as chuvas sempre arrastam casas e desabrigam milhares; em dezembro, se contam as moedas pra se tentar presentear alguns e excluir tantos outros de sua lista de presentes e agradecimentos; e em dezembro, nos pomos de joelhos pra agradecer a via crucis da vida e contar as bênçãos que nela recebemos.
É sempre o ritual do adeus que precede o novo. E acho curioso que a igreja católica tenha cunhado a celebração do nascimento de Jesus também para dezembro, para trazer esperança aos aflitos, que se multiplicam em progressão geométrica, independente de raça, cor ou credo, visto que o mundo desanda.
Nunca um ano foi tão cheio de revelações e revoltas como esse 2014 Nunca vi a televisão tão ocupada de noticias trágicas, de escândalos familiares, financeiros, políticos, jurídicos, amorosos e pessoais. Revejo toda essa enxurrada que assola a tantos, e choro. Choro sem controle, choro a dor da mãe Terra tão maltratada, choro pelos bebês abandonados em lixeiras, choro pelos abandonos nos hospitais, choro pelo desamparo das mães que perderam seus filhos de forma trágica, por violências incontidas, por abusos e desrespeitos, choro pela perda da harmonia e da segurança nos lares e nos trabalhos todos. Choro de alma que caracteriza a cicatriz que trago no peito desde tempos imemoriais e que vez por outra se abre, sempre que a vibração da perda da esperança e da ilusão que sonhar ainda é bom me pega desavisado.
Ah! 2014… Que ano tenso, que tempos de reconstrução tão difíceis. Você trouxe a eleição da presidência como sinal de mudança, e também a necessidade de mudança de credos, mudança de atitudes, de valores essenciais, mudança de DNA, sim, para que saiamos do egocentrismo, da ganância, da competição que modula todos os nossos sistemas, do educacional, ao político e econômico.
Quero ousar sonhar que a cooperação seja a tônica do ano novo. Que os lares sejam de todos e não apenas o lugar onde a mãe se desdobra pra manter a ordem e a harmonia. Que as escolas mostrem um novo paradigma na avaliação dos alunos, a força e o ganho da cooperação e não o incentivo inútil e fugaz ao poder do primeiro lugar - denominador da derrota de tantos, da sede de vingança, da opressão sem sentido, da fundação da humilhação e da baixa auto-estima.
Ouso sonhar que o mundo que sempre sonhei desde menina comece agora, já!- porque está muito difícil e é longa a demora dessa passagem, como a agonia de um parto pesado. A cada dia mais uma contração revelando mais uma avassaladora corrupção, mais uma falência institucional, mais tantos desalentos derrubando as ilusões que sustentam nossas instituições já tão falidas.
Como crer em justiça onde as sentenças são previamente compradas? Como crer na capacidade de adquirir um bem, se as instituições que controlam o curso do dinheiro estão quebrando? Como crer num sistema criado para manter a saúde de seus segurados, se as companhias não hesitam em deixar na mão os que mais precisam? Como crer no bem - propriamente dito - se o mal mostra sua cara todos os dias e a toda hora, revelando que não sabemos nos despedir de nossas ilusões?
Ainda se corre pra comprar um carro novo e ficar preso no trânsito como qualquer outro. Ainda se corre pra pegar as liquidações abertas e ficar com as contas penduradas nas paredes e as compras acumuladas nos armários. Ainda se corre para se praticar a filantropia de enviar sacos e sacos de doações para desabrigados e ver caminhões saqueados.
Quem precisa mesmo de tudo isso?
Meu olhar está cansado e as janelas de minha alma querem se fechar sem tempo pra se abrir até que esse prolongado adeus se finalize. E que esse adeus seja real, mais do que simbólico, e que não precisemos de desamparos tsunâmicos pra efetivar a concretude de que tudo passa, tal como nosso calendário e todas as ilusões que o tempo semeia.

FELIZ ANO NOVO!!!!

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Noite Na Taberna - Trechos Macário



MACÁRIO

Segundo Episódio

Na Itália
(Um vale, montanhas à esquerda – Um rio torrentoso à direita... .)


Macário (Cismado) – Morrer! Morrer! Quando o vinho do amor embebeda os sentidos, quando corre em todas as veias e agita todos os nervos... , parece que esgotou-se tudo. Amanhã não pode ser tão belo como hoje. E acordo do sonho, ver desfeita uma ilusão! Nunca!

(Mais longe, sentado num rochedo á beira do rio, está Penseroso cismando.)

Penseroso – (...) A solidão tem segredos amenos para quem sente. O coração do mancebo é como essas flores pálidas que só abrem de noite, e que o Sol murcha e fecha. (...) No silêncio sinto minha alma acordar-se embalada nas redes moles do sonho. É tão doce sonhar, para quem ama! (...).

Macário (Passando.) – Penseroso! Boa noite, Penseroso! Que imaginas tão melancólico?

Penseroso – Boa noite, Macário! Onde vais tão sombrio?

Macário (Sombrio.) – Vou morrer.

Penseroso – Eu sonha em amor!

Macário – E eu vou morrer!

Penseroso – Tu brincas. Vi um sorriso nos teus lábios.

Macário – É um sorriso triste, não? Eu to juro pela alma de minha mãe, vou morrer.



(...)
Penseroso – Que tens? Cambaleias. Está ébrio?

Macário – Ébrio sim! Ébrio de amor... de prazer. Aquela criança inocente embebedou-me de gozo. Que noite! Parece que meu corpo desfalece. E minha alma absorta de ternura só tem um pensamento: morrer!

Penseroso – Amar e não querer viver!

Macário – Ela é muito bela. Eu vivi mais nesta noite que no resto de minha vida. Um mundo novo se abriu ante mim. Amei.



(...)

Penseroso – E é tão doce amar! Eu amei, eu amo muito. Sabe Deus as noites que me ajoelho pensando nela!... A brisa bebe meus suspiros e minhas lágrimas silenciosas e doces orvalham meu rosto.

Macário – Oh! O amor! E por que não se morre de amor! Como uma estrela que se apaga pouco a pouco entre perfumes e nuvens cor-de-rosa... (...).

Penseroso – (...) Ousando a medo suspirar seu nome! Esperando a noite muda para contá-lo a noite vagabunda!

Macário – Morrer em uma noite de amor! (...)



* * *

Macário – Que idéia rola no teu cérebro inflamado, meu poeta. (...) por que tua cabeça se inclina ao peso dos pensamentos?

Penseroso – E, contudo eu amei-a! Eu amei tanto... Sagrei-a no fundo da minha alma a rainha das fadas, e ressumbrei nela o anjo misterioso que me havia conduzir adormecido no seu batel mágico a um mundo maravilhoso de amores divinos.

Macário (...) – Tenho pena de ti. Mas consola-te. Que valem as lagrimas insensatas? Todas elas são assim. Eu também chorei mas, como as gotas que porejam da abobáda escura das cavernas, essas lágrimas ardentes deixaram uma crosta de pedra no meu coração. (...).

Penseroso (...) Se tu soubesse no que penso e no que tenho pensando! Enquanto eu falo a minha alma desvaira, e a minha febre devaneia. Sonhei sangue... Em tudo! (...) depois minha cabeça escureceu-se... Pensei no suicídio... . Macário, Macário, não te rias de mim! Como o vagabundo, que se debruça sobre um precipício sem fundo, senti a vertigem regelar meus cabelos hirtos e um suor de medo banhar minha fronte... Tenho medo!... Sou um doido, Macário, eu o sei. Que longa vai essa noite! A lua avermelhada não lança luz no céu escuro; nem a brisa no ar; e uma noite de verão, ardente como se a natureza também tivesse a febre que inflama meu cérebro!... .



(...)

Macário – Talvez seja a treva de meu corpo que escureça minha alma. Talvez uma anjo mau soprasse no meu espírito as cinzas sufocadas da dúvida. Não sei. Se existe Deus, ele me perdoará se a minha alma era fraca, se na minha noite lutei embalde com o anjo como Jacó, e sucumbi. Quem sabe? – eis tudo o que há no meu entendimento. As vezes creio, espero: ajoelho-me banhado de pranto e ora; outras não creio, e sinto o mundo objetivo vazio como um túmulo.



* * *

Álvares de Azevedo; Noite na Taverna/Macário; Editora: Martin Claret; 2003. Originalmente publicado em 1855 – Obras de Álvares de Azevedo.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Naquele momento eu só podia amá-lo

O relógio da Catedral soa a terceira balada da madrugada. Encosto meu corpo na cabeceira da cama, O céu está negro, repleto de estrelas, uma meia lua prateada. O vento sopra forte, trazendo o cheiro da maresia. A minha casa está apinhada de gente. As cortesãs, os poetas, os artistas, os amantes, os boêmios. Bêbados, celebrando, cortejando, conquistando, amando, se entregando aos prazeres da vida mundana, chorando, sofrendo, pensando no suicídio. Todo este cenário me remete a mais doce melancolia.

No móvel ao lado da cama, Byron e uma vazia garrafa de vinho. Deitado em minha cama, meu doce querubim, dorme seu sono dos anjos. Após me propiciar uma noite regada de delicias inebriantes. Os traços de seu rosto são delicados, seu corpo é delineado por formas minuciosamente desenhadas. Provavelmente deva ser um dos mais belos anjos de Deus, que caído, veio se acomodar em minha cama. Meus olhos se enchem de lágrimas ao vê-lo dormindo. Meu anjo cheio de volúpia e movido à paixão. Entregue aos meus mais delirantes caprichos. Pronto para satisfazer aos meus desejos mais insanos.

Dirijo-me até a porta da varanda, o vento gélido da madruga bate em meu corpo febril e arrepio-me. Fecho meus ardentes olhos e escuto um jovem músico fazer uma canção cheia de dor e amor preencher o local. Minha alma é absorvida por cada nota daquela musica apaixonada e sofrida. Sinto as lágrimas banharem meu rosto, a febre tomar conta de meu corpo, a dor rasgar meu coração e minha alma mergulhar na mais completa escuridão. Sinto as aceleradas batidas de meu coração, sinto minha alma se debater dentro de mim, meus pensamentos confusos. A angústia me dilacera. A dor desta fez será fulminante, meu coração não suportará.

Sinto o corpo nu e quente contraindo-se contra o meu, envolvendo-me por completo. Suspirei. Mencionei dizer algo. Ele colocou-me de frente para ele. Pegou em minha mão, levando-me até a minha cama novamente. Deitou-se ao meu lado. Levou-me para junto do seu corpo, acomodando-me em seu peito. Abriu o livro de Byron, que estava sobre o móvel ao lado da cama, e passou a recitar os poemas lá escritos. Eu naquele momento só pudi simplesmente amá-lo.





sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

2 x 1 (duas pra um)


Eram duas amigas tão próximas e tão parecidas que qualquer observador desavisado pensaria serem irmãs. Inseparáveis. Vestiam roupas parecidas, cortavam o cabelo da mesma forma. Suas personalidades, no entanto, eram opostas, e este talvez fosse o seu maior elo. Elas eram complementares.
Uma era inteligente, extrovertida, dona de uma sinceridade até exagerada. A outra era um tipo meigo. Quieta, dissimulada, silenciosa. A primeira via o mundo e as pessoas como coisas que estavam ali para serem provadas, usufruídas, sem dramas ou complicações. Já a segunda procurava não se arriscar, guardando na segurança de seus segredos os desejos que imaginava ter.
Essa falta de coragem acabou por levá-la a uma vida monástica, solitária. Vinte e tantos anos e nenhum namorado. Virgem! Nunca um beijo, um carinho, uma declaração de amor. Roia a ansiedade e o desespero enquanto assistia à alegre sucessão de amizades e amores da amiga, esta sempre bem acompanhada, risonha, feliz.

Por um destes caprichos do destino, aconteceu um dia em que as duas se interessaram pelo mesmo homem. Não que fosse grande coisa, esse homem. Não que fosse o cara certo para qualquer uma das duas. Mas essas coisas são assim mesmo, e lá estava o homem diante das duas moças, e lá estavam as duas moças, cada uma a seu modo, oferecendo algo ao homem. Que só tinha olhos para uma delas. E que só podia ter olhos para uma delas.
Ele não teve sequer um segundo de dúvida. Aceitou com prazer o copo meio cheio oferecido pela moça extrovertida, preso por um encantamento duradouro.

Tão encantado que nem mesmo percebeu o que acontecia com a outra. E, de qualquer forma, perceber não teria mudado nada. No fundo, no fundo, era só uma questão de conveniência para ela. Ou não. Talvez ela tivesse tentado se convencer de que gostava dele por pura necessidade de gostar de alguém. Ou talvez ela tenha gostado mesmo dele sem nem saber disso. Seja como for, ninguém poderia imaginar que, ao ver os dois juntos, ela fosse se sentir como quem tivesse sido atropelada por um rolo compressor.

Quis se vingar. Ficou em casa como bicho enlouquecido por meses até resolver agir. Comprou uma arma e tentou matá-lo com três tiros pelas costas. Para sorte dele, ela era ruim de pontaria e nenhum dos tiros atingiu algum órgão vital. A confusão foi grande, mas como tudo na vida, passou logo. Entre sopinhas e curativos, ele está se recuperando aos poucos. Às vezes recebe a visita da mocinha extrovertida, e nestes dias se esbalda de prazer e alegria.

Ela cumpre pena por tentativa de homicídio. Dizem que, na cadeia, ela começou a se corresponder com um sujeito sangue-bom da malandragem, hóspede do Cadeião de Pinheiros. Acredita que, pela primeira vez na vida, tem motivos para ser feliz. Pra você ver como o ser humano é feliz em qualquer situação quando está bem disposto...