segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Tinha a calma das antigas prostitutas. Seus ossos desprendiam um cheiro de meia-calça suada e sua pele filtrava o cheiro, que subia pelo ar conforme meus olhos desciam por uma estrada à beira de um penhasco, num cenário medieval. Toda ela covas e mãos. Tinha gosto de uma antiga dúvida, com quem eu havia dormido em vão por anos a fio. Salgada sempre, o pescoço um arquipélago de sardas insaciáveis. Lentes moldadas em hastes singelas, escoradas no ângulo escorregadio de uma leve frustração, que, no entanto permanece. Mãos zumbis, suas veias me chamavam depois me dispersavam, e ela falava alguma coisa sobre morar em algum lugar, mas eu só pensava em engolir vivo seu coração, cair de joelhos diante daquelas veias suplicantes, daquelas unhas polidas e limpas, mas sem esmalte algum, como um poema. No fundo dos seus olhos, o juízo final de Bosch, sutilmente encortiçado por uma nuvem de movimentos lentos e exatos, como os de uma garça satisfeita. Uma alma de algodão na superfície, disposta a sorrisos inseguros, escondia no fundo cacos de útero, que mortos vivos preenchiam diariamente com seu branco fúnebre, através de um balcão infinito de possibilidades abortadas entre um gole e outro de absinto.



"Em nome de Deus,para todos aqueles que se tornaram corpos sem vontade própria darei a paz eterna. Amém."

terça-feira, 21 de agosto de 2007

THE NEW VAN HELLSING


Eu sou lúcido na minha loucura, permanente na minha inconstância, inquieto na minha comodidade. Pinto a realidade com alguns sonhos, enxerto sonhos em cenas reais. Choro lágrimas de rir e quando choro pra valer não derramo uma lágrima. Amo mais do que posso e, por medo, sempre menos do que sou capaz. Busco pelo prazer da paisagem e raramente pela alegre frustração da chegada. Quando me entrego, me atiro e quando recuo não volto. Mas não me leve a sério, sei que nada é definitivo. Nem eu ou o que penso que eu sou. Nem nós ou que a gente pensa que tem. Prefiro as noites porque me nutrem na insônia, embora os dias me iluminem quando nasce o sol. Trabalho sem salário e não entendo de economizar. Nem energia. Esbanjo-me até quando não devo e, vezes sem conta, devo mais do que ganho. Não acredito em duendes, bruxas, fadas ou feitiços. Nem vou à missa. Mas faço simpatias, rezo pra algum anjo de plantão e mascaro minha fé no deus do otimismo. Quando é impossível, debocho. Quando é permitido, duvido. Bebo, porque só, não me aceito sóbrio, fumo pra enganar a ansiedade e não aposto em jogo de cartas marcadas. Tomo café da manhã, almoço, não vivo de dieta e penso mais do que falo. E falo muito quando quero. Nem sempre o que você quer saber. Eu sei. Gosto de cara lavada — exceto por um traço preto no olhar — pés descalços, nutro uma estranha paixão por alguem e sinto falta desse alguém no lado esquerdo do peito. Mas há uma mulher em algum lugar em mim que usa caros perfumes, sedas importadas e brilho no olhar, quando se travesti em sedução. Se você perceber qualquer tipo de constrangimento, não repare, eu não tenho pudores, mas, não raro, sofro de timidez. E note bem: não sou agressivo, mas defensivo. Impaciente onde você vê ousadia. Falta de coragem onde você pensa que é sensatez. Mas mesmo assim, sempre pinta um momento qualquer em que eu esqueço todos os conselhos e sigo por caminhos escuros. Estranhos desertos. E, ignorando todas as regras, todas as armadilhas dessa vida urbana, dessa violência cotidiana, se você me assalta, eu reajo. E disso tudo você acha um mistério, mas simples de se explicar. E assim diz que não me “conhece” enquanto lhe agradeço por em mim confiar.