sexta-feira, 14 de agosto de 2009

AMAR CEGAMENTE

Adorava quando ela soltava os cabelos. O rosto emoldurado pelos cachos ainda amolecidos da recém-lavagem era um convite a uma demorada apreciação. Porém, havia um problema: quando eu chegava mais perto dela, ou quando resolvia colocar meus óculos grau seis para miopia, sobre mim se abatia aquela decepção... Uma desesperança alada, uma tristeza aflitante que eu não conseguia disfarçar. Ela era muito feia. Mas eu a amava e nós íamos nos casar.

Já fazia quatro anos que namorávamos. Parece brincadeira, mas eu nunca colocava os óculos quando estava com ela. Com isso, só via seus contornos, misturados todos num imenso borrão, algo que acabava parecido com um quadro impressionista. Tudo porque ela era feia. Tinha lá seus atributos: seios e pernas. Mas o rosto era de uma feiúra que nem todos os seculares segredos de maquilagem femininos podiam salvar. Sua feiúra de Quasímodo convergia os músculos de toda e qualquer face em caretas grotescas. Era incidir os olhos nela por mais de trinta segundos e o susto vinha na certa.


O nariz tomava quase toda a face. Além de encurvado, se esparramava no nível das narinas, tomando boa parte do espaço das bochechas. Tinha algumas sardas, mas não daquelas que, geralmente, dão ares angelicais ao seu possuidor. Eram como respingos de lama marrom-escura, grandes e disformes, espalhadas nas maçãs do rosto. As sobrancelhas grossas eram bonitas, se não funcionassem como uma espécie de bainha mal feita que costurava o pé-de-testa miúda que ela tinha. As orelhas normais não apareciam por causa dos cabelos soltos.


O corpo não era nem feio, nem bonito. Mas havia os seios e as pernas. Algumas espinhas gordas e amarelas salpicavam as costas brancas, o que a deixava incomodada (raramente a via com roupas decotadas). Depois de tudo isso, você acredita que eu estava de casamento marcado com ela? E que faltava apenas uma semana para que nos uníssemos supostamente para o resto de nossas vidas? Pois bem, acredite. Meu terno já estava quase pronto, necessitando apenas de alguns ajustes aqui e ali. Os convites? Estes já deviam estar, há duas ou mais semanas, repousando sobre as mesas, escrivaninhas e criados-mudo das casas de nossos amigos e parentes.


O que me fez gostar dela? Até hoje não sei responder a essa pergunta de maneira precisa. Sei lá, ela tinha um cheiro - que não era de perfume ou pó compacto - que me fazia palpitar inteiro. E conseguia sublimar naquela estranha beleza impressionista, borrada em mil cores, indefinida de traços, olhos, boca, nariz. Lia Kafka usando meias brancas e bebendo litros de Coca- Cola. Um charme... Fazia o melhor café do mundo. E fazia uma coisa que me tirava do prumo: gostava de sentar encolhida no banco do jardinzinho de sua casa, enquanto rabiscava - imitações de desenhos - coisas que via na rua: carros, pés, flores. Não dava pra dizer que desenhava bem, mas... Desenhava bem, entende? Como eu a amava... Enquanto rabiscava em seu caderninho, eu escrevia meus pensamentos soltos, sem ao menos enxergar o curso das frases. Já escrevo por intuição, confiando em minha coordenação motora de arquiteto. O fato é que adorava quando ela lavava os cabelos. Como adorava... Esse negócio de escrever sem enxergar... Já estou até me acostumando, porque tinha decidido não correr mais o risco de me decepcionar com a feiúra dela e não colocava os óculos quase nunca. Amá-la no escuro era a melhor das coisas: ela, a serpente horrenda e eu, possuído pelo desejo de Psique, a amando sem nem sequer sabê-la. Essa necessidade de viver na escuridão era cada vez mais urgente: era no escuro que eu conseguia senti-la bela, perfeita, suave. É... E daqui a algumas semanas, me caso com uma das mulheres mais feias que eu já vi em toda a minha curta vida. A mulher que eu mais amei. Tinha que fazer o que estava pensando há meses. Era a única chance de abraçar a felicidade inteira, dando até pra tocar as pontas dos dedos de tão segura que ela estaria em meus braços.


Nessa noite em que eu me decidi por fazer o que estava pensando, um friozinho fino enlaçava minhas canelas. Eu tinha passado a tarde toda com ela, seus cabelos molhados e seu caderninho de rabiscos. Levantei-me da cama e fui até o meu atelier. Dei uma última olhada nas plantas que estavam abertas por sobre a prancheta: projeto de um prédio novo, no centro da cidade. Eu era um arquiteto conceituado, tinha um bom traço e ganhava bem. Seria capaz de desenhar até de olhos vendados, como dizia minha mãe. Por isso, o que eu estava querendo naquela noite... Não iria me fazer falta, eu aprenderia a me virar no escuro - coisa que já estava fazendo há algum tempo, era bem verdade.
Cheguei mais perto da mesinha e acendi a luminária. Observava todas as sombras vomitadas pelos milhares de objetos que enchia a sala: estantes, cadeiras azuladas, quadros de arte moderna, daqueles bem coloridos. Era a última vez que veria aquilo tudo. Tirei os óculos e os joguei na lata de lixo. E me dirigi à escrivaninha. Nela, canetas, lápis, réguas. Nada disso era suficientemente eficaz para o que eu queria fazer a não ser...
O compasso! Era ele, era ele. Decidido, tomei-o em minhas mãos, que, acreditem, não estavam vacilantes. Apenas um golpe. E lá se foi a visão do olho direito. Outro na mesma medida para o esquerdo. Uma dor filha da mãe, misturada com um ardor imensurável. Fechei os olhos e deitei, enquanto tudo o que havia de líquido em meu corpo parecia minar dos buracos recém-feitos. E a cegueira veio preta e imensa quando tornei a levantar minhas pálpebras moles. Todas as luzes do mundo estavam apagadas.


Eu fiquei lá no chão por um bom tempo, imerso no que mais parecia um imenso caldeirão. Nada, não via absolutamente nada. Tudo negro, do jeito que eu queria. A agonia do começo desapareceu logo. O que aconteceu depois não precisa ser lá muito detalhado: amigos e parentes inconformados e cheios de piedade, ela perguntando "por quê?", inconsolada, inúmeras tentativas em vão de se recuperar o estrago etc., etc., etc. Depois de todo esse ritual pós-tragédia, quando eu já tinha me acostumado a sentir e a cheirar as coisas, experimentei a maior das felicidades: amar, todos os dias, a mulher mais linda que já tinha aparecido em minha vida.
Amar cegamente.






"Em nome de Deus,
para todos aqueles que se tornaram corpos sem vontade própria
eu lhes darei a paz eterna.
Amém."

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Aliás, que dor...

Eu queria saber escrever o que não sei dizer. Contar até três e não estar velho e murcho e pronto pro chão. Nunca falo nada que presta, só sei falar do que me resta, e talvez seja por isso que preciso de certas confirmações de lealdade explícitas como um caco de vidro entre a unha e a ferida. E todos têm o seu caco.
Queria poder evitar as consternações, não por evitá-las única e simplesmente, mas por estar certo de que evitar apertos de saco só se faz com cueca larga. As coisas não podiam me arrematar de forma tão trágica. Isso não é justo nem é crônico, não pr'um diurno com cara de insone, nem pr'um noturno com sede de mamão ao leite, para alguém que bebe para ser, assim como eu, que não sou nada além de um copo e alguns sorrisos sem que eles nunca sejam suficientes para aquilo que as pessoas esperam do mundo e do céu. É algo que nunca experimentei, eu mesmo, assim, sabe? Verdadeiramente. E isso será para sempre, até amanhã de manhã, quando tudo poderia ser o que jamais foi pelo menos por duas vezes seguidas, e eu poderia olhar, parar, piscar, amar, paraíso, inferno, indeciso, chegar bem perto, me leva!, sai daqui!, me aceitar e aceitar qualquer tipo de bobagem sobre temperamentos, classes sociais, bons homens com poder, patinhas de frutos do mar ou bebidas que mudam de cor com o toque mágico do amor, ou quem sabe tudo o mais que me disserem, sem desconfiar tanto de que aquilo tudo é uma imposição da liberdade do que chamam de arte, que no fundo é como fazer parte do nada coletivo que está ali do lado da minha sinceridade e do meu atino, impregnado do que eu já não toco mais com dedos sujos nem sei mais desempenhar sem no mínimo te/me espremer à vontade, porque tenho medos e dedos demais para falar a sério sobre a morte, dedos com as palavras subtraídas do que nunca é dito, medo de virar trabalho, filosofia ou credo, medo de ser vagabundo, de nunca ter nada da terra e nem da dor, porque os dois andam sozinhos e de mãos dadas pra lá e pra cá, e de cá, nada que dê vontade de espremer de verdade, mesmo que seja mentira, e isso me fode como a um escritor de blogs.

A mentira deve ser sustentada porque a verdade não é nada que não possa ser contornada. E não dizer nada me parece de bom gosto. Gosto de não falar nada. É quando entendo que o que há de terrível na terra e no céu e nos nossos dias inventados é aquilo que não se diz, e me sinto bem e sinto que é possível não ter nada, mesmo que a morte possível seja impossível pr'uma vida atarantada de lindas mentiras trágicas. E não consigo me livrar das outras pessoas, todas as que amo e as que analiso e idealizo como um naipe de metais ou uma bancada de frutas da estação. Não que eu tenha alguma coisa contra elas, as frutas e as estações e as pessoas, não é isso, o único problema é que elas existem e eu não. E eu sei que já disse isso e que o peso está no ar, peso leve, por mais incrível que isso possa parecer ou aparecer no meu cesto de bondades proibidas pela moral que implantei em mim mesmo quando tinha que virar bicho ruim. O problema é que só penso nisso realmente bêbado, bicho bom, o que serve pra me punir por não ser nem duro nem cálido, por transitar entre vontade, bondade, ácido, cerveja e cama. E seja falando de países jamais absorvidos, seja falando de bainhas de saias ou dedos dos pés: o problema caminha e a alma se engana. E o fator da existência é o que mais me aflige. Porra, há um milhão de anos que eu sou nada e preciso de tudo. E Camus, e Kierkegaard e Radiguet, todos mortos por dois trizes falhos, por serem o que gostavam mesmo sabendo que isso não gostava muito deles. Porque, afinal, sendo eu ou não um merda, as coisas a minha volta meio que me assumem, me tiram pra dançar, um bailão traiçoeiro de pingos, gritos, lágrimas e coisas boas sem nome.

E não falar sobre isso seria o mesmo que chutar o chão.

Aliás, que dor...




"Em nome de Deus,para todos aqueles que se tornaram corpos sem vontade própria darei a paz eterna.
Amém."