sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

E logo você que não gosta de rosas

É madrugada e acordo febril, todo meu corpo queima a uma temperatura alta, todo ele dói, não existe uma parte do meu corpo que não esteja tomado de dor. O suor escorre pelo meu corpo, o lençol em baixo de mim está molhado, meu cabelo ensopa o travesseiro, meus olhos ardem, minha cabeça lateja. A minha cama gira, a escuridão parece infinita e meus olhos não conseguem rompê-la, o silêncio da alta madrugada reina lá fora, enquanto ouço o meu coração a bater descompassado em meu peito, o meu sangue corre fervendo e rápido por minhas veias, meus pensamentos estão desordenados, tento em vão ordená-los.

Fico deitada, paralisada, tentando recompor minha respiração e mais uma vez ordenar meus pensamentos, chego à conclusão que estou sozinha, mas preciso fazer algo, porque creio que a morte está próxima e penso como seria o anjo da morte, este anjo que desejo conhecer de maneira tão árdua nesses últimos tempos. Fecho meus olhos novamente e ouço finalmente o barulho do mar, das ondas quebrando na praia e batendo no píer, recobro minha respiração com a ajuda do ritmo do mar, a vertigem vai acabando lentamente, tento recobrar minhas forças.

Levanto devagar, procuro ainda fraca uma vela, a luz serve para eu achar meu casaco, que coloco por cima da minha camisola. Saio do meu quarto e desço a grande escadaria, chego à porta de entrada e saio para a noite. Uma brisa gelada faz todo o meu corpo quente se arrepiar, ando lentamente, ainda estou fraca, vou em direção à praia.

Desço a escadaria anexa à mureta, eu coloco meus pés descalços na areia gelada e meu corpo se arrepia por inteiro novamente, avanço em direção ao mar, sento-me alguns metros de distancia de onde quebram as ondas, respiro o ar gelado da noite, me encolho em meu casaco, e deixo meu pensamento devagar no encontro da lua cheia e do mar. Ele passeia por todos os acontecimentos recentes de minha vida, pára por uns instantes em algum momento e logo volta a divagar. Lagrimas começam a escorrer em meu rosto, meu coração se encolhe em algum canto escuro do meu peito, minha alma quer fugir da escuridão que me transformei. Olho para os lados, e novamente estou só.

Procuro me encolher mais em meu casaco, agora choro compulsivamente, meu peito dói, a vertigem volta, a febre parece aumentar, e começo a perder o controle de minha mente, mas antes que a loucura me tome de assalto, ainda consigo pensar em você, e devido a um desses acontecimentos que ninguém consegue explicar: senti meu corpo ser tomado por outro corpo, senti braços fortes a me abraçaram, fui sendo acomodada lentamente em um peito aconchegante, fui sendo aquecida por um corpo quente, acalentada por mãos firmes,, mas carinhosas, acalmada por uma voz doce que me dizia: “Está tudo bem. Eu estou aqui agora. Fique calma, sim.”.

Escondi-me em seu peito, me enrosquei em seus braços, e de lá não sai, ate que a voz me disse: “Venha vou te levar para casa agora.”. Fui conduzida ate em casa, apoiada em seu ombro e protegida por seus braços. Fui posta de volta na minha cama, e senti o peso do seu corpo a deitar ao meu lado, fui conduzida para seus braços, e acomodada em seu peito, e ele sussurrou: “Agora durma minha querida, velarei seu sono e a manterei protegida.”. E assim adormeci naqueles braços, acomodada naquele peito, instalada no meu melhor lugar do mundo. Enquanto ele brincava com meus cachos e sentia o perfume do meu cabelo.

Acordei no outro dia com minha cama vazia, apenas eu estava deita nela, a febre havia cedido, a vertigem já não existia, minha respiração voltará ao normal e meus batimentos cardíacos estavam controlados, assim como, eu já era, novamente, dona de meus pensamentos. Fiquei ali, deitada olhando para o teto, pensando se tudo aquilo foi mais um dos meus sonhos delirantes. Mas tudo pareceu tão real, teu corpo, tua pele, teu perfume, a sua voz e a maneira como encontrei a paz e a proteção nos seus braços. Uma alucinação pode ser tão concreta assim?

Aconcheguei-me entre meus travesseiros e quando encostei o rosto em um deles, que estava mais próximo, senti o seu perfume, o seu inconfundível perfume, e posta com delicadeza, nesse mesmo travesseiro, lá estava uma rosa vermelha.

sábado, 30 de novembro de 2013

Uma especie de mal súbito tomou-a de assalto naquela madrugada fria, o céu estava negro e límpido, não haviam estrelas, apenas a lua cheia e amarela, como um circulo de luz flamejante, solitário em uma imensidão negra. Ela teve diversos sonhos, mas não pode se lembrar de nenhum ao certo, eram imagens desconexas e desagregadas, passando em sua mente em uma velocidade incrível. Ela acordou suada, respiração ofegante, fala entrecortada, seu corpo todo estava banhado em suor e começou a chorar compulsivamente. Só conseguiu dormir após longos goles de absinto.

No outro dia, logo ao amanhecer, sentou-se na cama e se pós a pensar. Não conseguia descifrar as imagens, mas seguiu sua intuição, saiu para fria manhã, sentiu o vento gelado que vinha do Mediterrâneo, cobriu a cabeça com o capuz de seu manto negro, para se proteger da garoa e seguiu em frente, sem saber que rumo estava tomando, e aonde seus passos apertados e apressados a levariam, sua mente divagava. De repente seus instintos a pararam em frente a uma grande igreja de estilo gótico. Ela olhou a escadaria, e começou a subi-la, entrou na igreja e observou calmamente, todas as imagens, nos afrescos pintados nas paredes. Leu as inscrições em latim. Escolheu um banco e ajoelhou-se, fez sua oração diante de Cristo, sem saber ao certo o que aquela oração dizia e então levantou-se e seguiu na direção do altar, tomou o lado esquerdo, aproximou-se, segurou nas grades do grande portão de ouro, com seus entalhes e detalhes sacros, e olhou para dentro, em meio ao escuro, pode ver Cristo carregando sua cruz, e Verônica a limpar seu suor e seu sangue. Em frações de segundo pode senti-lo, ele estava lá, sua presença era tão perceptível, quanto a de qualquer corpo material que ali estivesse, podia sentir sua energia e escutar os batimentos de seu coração e o barulho de sua respiração. Ele estava ali, ele agora habitava ali. Que melhor lugar para se resguardar do que aquele lugar que era sagrado.

Ela saiu da Igreja, desceu as escadarias e rumou para casa, com o coração leve e alma tomada de uma melancolia que podia ser facilmente confundida com paz de espirito ou ate mesmo felicidade.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Andanças

A lua míngua em meu peito, sinto-me desprovido de luz. É uma experiência amarga que não desejo nem ao meu maior inimigo, se é que o tenho. Essas coisas acontecem porque vivo correndo atrás do tempo, e ele, correndo de mim o tempo todo. Sei que essa luta não terá fim, pois a morte está dentro de mim, de você e de todos que vivem neste mundo, nesta bola quadrada que hoje se apresenta de ponta-cabeça.

Dizem que sou meio louco, acho que sou totalmente maluco. Ainda ontem, queria passar por baixo da linha do Equador. Só não passei porque tive medo de não encontrar o caminho de volta pra minha casa.

O meu cansaço é legítimo, minha alma vaga perdida pelas ruas como se fosse um corpo doente, escravizado no arcabouço que leva o meu nome. Tenho tentado, amargamente, abandonar todos os questionamentos que se referem à vida, buscando viver. Eu disse: viver?! Acho que foi isso. Bem que eu poderia gritar, o mais alto, tanto quanto meus pulmões pudessem suportar.

Algumas pessoas encontram a liberdade quando conseguem livrar-se da escravidão do momento, outros trocam a liberdade pelo dinheiro ou pelo poder. Já vi parte dessas criaturas embriagadas dentro de uma montanha de notas, algumas até falsas. Confesso que todas às vezes que presenciei essas cenas tive vontade de vomitar. O cheiro do dinheiro me enoja, enquanto que a possibilidade do poder me sufoca, me tira o prumo. Por isso, continuo amarrado aos meus braços e pernas, procurando refúgio em minhas fraquezas, embaralhando-me cada vez mais nas peripécias da vida.

Às vezes passo horas e horas defronte a uma ampulheta. Fico albergado no movimento uniforme da areia que teima em passar de um lado ao outro, como se não houvesse qualquer impedimento. Meus olhos fascinados não piscam, não movem, não choram — se bem que a vontade é grande. O tempo trafega em meus poros, sinto a poeira tentando escapar do vidro para contaminar meu sangue. A dor chega inconsequente aos meus ouvidos.

Hoje amanheci menos tristonho, cheguei à conclusão de que o homem que não foi castigado não é capaz de sonhar. Preciso fugir de dentro de mim enquanto posso. Lá fora o mundo pode ser melhor e mais bonito. Estou saindo, fugindo dos espelhos. Quando me encontrar, de novo, vou berrar: muito prazer... Gilson Ikeda.






"Em nome de Deus,
para todos aqueles que se tornaram corpos sem vontade própria
eu lhes darei a paz eterna.
Amém.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

AMIGO(A) DISTANTE


Há uns amigos com quem estamos sempre quites. Ou, quando estamos devendo, é por pouco tempo. Logo pagamos uma visita, um telefonema, um presente de aniversário. Caminhamos em paralelo, nunca nos afastamos ou nos chocamos com eles. Para esses, ligamos no Dia do Amigo ou pedimos desculpas depois por não ter ligado. Com eles vamos às festas, aos bares, ao trabalho, à escola, ficamos tristes ou alegres conforme eles estejam.

Outros deixaram de ser amigos. Chocaram-se conosco. Desses dizemos que não eram realmente amigos, porque amigos não fazem isso. Que não mereciam nossa amizade. Que gastamos tempo e afeto com eles. Que não souberam honrar a amizade. A esses não procuramos e evitamos encontrar. Chegamos a prevenir outros amigos: -- cuidado com ele. Como somos boas pessoas, não lhes queremos mal, mas não nos interessam mais. Não há o que contabilizar da amizade, a não ser algumas mágoas. Viramos a página e estamos em paz.


Mas há um terceiro tipo de amigo, com quem nunca nos chocamos, que também não caminha conosco. Não houve qualquer conflito, mas os passos se distanciaram por imposição do terreno e até hoje não entendemos direito o que aconteceu. Quando vimos que estávamos nos afastando, ainda acenamos como se já fôssemos nos encontrar, retomar as paralelas e continuar a vida. Fomos ficando distantes mesmo com planos de reaproximação. Não sentíamos tanto a ausência porque voltaríamos a andar lado a lado como sempre.


Os dias viraram meses e os meses, anos. À distância e o tempo foram aumentando e a vida nos empurrando por caminhos divergentes. Começou a ficar incômodo pensar naquele amigo. Uma culpa por não ter vencido as distâncias e os silêncios e resgatado a amizade que com certeza permanece intacta. Amizade de irmão eleito, que dividia o lanche e a casa; que emprestava a roupa e os pais. Amizade de saber que teria se o outro tivesse, ou que a falta não doeria tanto porque seria compartilhada. A vida separou. Ficou a nostalgia que enche de ternura no peito em que ficou um espaço. Espaço que tem dono. Volte ou não volte o amigo, o lugar está lá.


É pra você, amigo distante, o meu abraço de hoje. Saiba que você está comigo, esteja onde estiver.


"Em nome de Deus,
para todos aqueles que se tornaram corpos sem vontade própria
eu lhes darei a paz eterna.
Amém."