"Em nome de Deus,para todos aqueles que se tornaram corpos sem vontade própria darei a paz eterna. Amém."
O gênio e o louco num ponto se assemelham: ambos vivem em um mundo diferente daquele em que vivem os outros mortais. (Arthur Schopenhauer)
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
Tinha a calma das antigas prostitutas. Seus ossos desprendiam um cheiro de meia-calça suada e sua pele filtrava o cheiro, que subia pelo ar conforme meus olhos desciam por uma estrada à beira de um penhasco, num cenário medieval. Toda ela covas e mãos. Tinha gosto de uma antiga dúvida, com quem eu havia dormido em vão por anos a fio. Salgada sempre, o pescoço um arquipélago de sardas insaciáveis. Lentes moldadas em hastes singelas, escoradas no ângulo escorregadio de uma leve frustração, que, no entanto permanece. Mãos zumbis, suas veias me chamavam depois me dispersavam, e ela falava alguma coisa sobre morar em algum lugar, mas eu só pensava em engolir vivo seu coração, cair de joelhos diante daquelas veias suplicantes, daquelas unhas polidas e limpas, mas sem esmalte algum, como um poema. No fundo dos seus olhos, o juízo final de Bosch, sutilmente encortiçado por uma nuvem de movimentos lentos e exatos, como os de uma garça satisfeita. Uma alma de algodão na superfície, disposta a sorrisos inseguros, escondia no fundo cacos de útero, que mortos vivos preenchiam diariamente com seu branco fúnebre, através de um balcão infinito de possibilidades abortadas entre um gole e outro de absinto.
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