sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Andanças

A lua míngua em meu peito, sinto-me desprovido de luz. É uma experiência amarga que não desejo nem ao meu maior inimigo, se é que o tenho. Essas coisas acontecem porque vivo correndo atrás do tempo, e ele, correndo de mim o tempo todo. Sei que essa luta não terá fim, pois a morte está dentro de mim, de você e de todos que vivem neste mundo, nesta bola quadrada que hoje se apresenta de ponta-cabeça.

Dizem que sou meio louco, acho que sou totalmente maluco. Ainda ontem, queria passar por baixo da linha do Equador. Só não passei porque tive medo de não encontrar o caminho de volta pra minha casa.

O meu cansaço é legítimo, minha alma vaga perdida pelas ruas como se fosse um corpo doente, escravizado no arcabouço que leva o meu nome. Tenho tentado, amargamente, abandonar todos os questionamentos que se referem à vida, buscando viver. Eu disse: viver?! Acho que foi isso. Bem que eu poderia gritar, o mais alto, tanto quanto meus pulmões pudessem suportar.

Algumas pessoas encontram a liberdade quando conseguem livrar-se da escravidão do momento, outros trocam a liberdade pelo dinheiro ou pelo poder. Já vi parte dessas criaturas embriagadas dentro de uma montanha de notas, algumas até falsas. Confesso que todas às vezes que presenciei essas cenas tive vontade de vomitar. O cheiro do dinheiro me enoja, enquanto que a possibilidade do poder me sufoca, me tira o prumo. Por isso, continuo amarrado aos meus braços e pernas, procurando refúgio em minhas fraquezas, embaralhando-me cada vez mais nas peripécias da vida.

Às vezes passo horas e horas defronte a uma ampulheta. Fico albergado no movimento uniforme da areia que teima em passar de um lado ao outro, como se não houvesse qualquer impedimento. Meus olhos fascinados não piscam, não movem, não choram — se bem que a vontade é grande. O tempo trafega em meus poros, sinto a poeira tentando escapar do vidro para contaminar meu sangue. A dor chega inconsequente aos meus ouvidos.

Hoje amanheci menos tristonho, cheguei à conclusão de que o homem que não foi castigado não é capaz de sonhar. Preciso fugir de dentro de mim enquanto posso. Lá fora o mundo pode ser melhor e mais bonito. Estou saindo, fugindo dos espelhos. Quando me encontrar, de novo, vou berrar: muito prazer... Gilson Ikeda.






"Em nome de Deus,
para todos aqueles que se tornaram corpos sem vontade própria
eu lhes darei a paz eterna.
Amém.