Adorava quando ela soltava os cabelos. O rosto emoldurado pelos cachos ainda amolecidos da recém-lavagem era um convite a uma demorada apreciação. Porém, havia um problema: quando eu chegava mais perto dela, ou quando resolvia colocar meus óculos grau seis para miopia, sobre mim se abatia aquela decepção... Uma desesperança alada, uma tristeza aflitante que eu não conseguia disfarçar. Ela era muito feia. Mas eu a amava e nós íamos nos casar.
Já fazia quatro anos que namorávamos. Parece brincadeira, mas eu nunca colocava os óculos quando estava com ela. Com isso, só via seus contornos, misturados todos num imenso borrão, algo que acabava parecido com um quadro impressionista. Tudo porque ela era feia. Tinha lá seus atributos: seios e pernas. Mas o rosto era de uma feiúra que nem todos os seculares segredos de maquilagem femininos podiam salvar. Sua feiúra de Quasímodo convergia os músculos de toda e qualquer face em caretas grotescas. Era incidir os olhos nela por mais de trinta segundos e o susto vinha na certa.
O nariz tomava quase toda a face. Além de encurvado, se esparramava no nível das narinas, tomando boa parte do espaço das bochechas. Tinha algumas sardas, mas não daquelas que, geralmente, dão ares angelicais ao seu possuidor. Eram como respingos de lama marrom-escura, grandes e disformes, espalhadas nas maçãs do rosto. As sobrancelhas grossas eram bonitas, se não funcionassem como uma espécie de bainha mal feita que costurava o pé-de-testa miúda que ela tinha. As orelhas normais não apareciam por causa dos cabelos soltos.
O corpo não era nem feio, nem bonito. Mas havia os seios e as pernas. Algumas espinhas gordas e amarelas salpicavam as costas brancas, o que a deixava incomodada (raramente a via com roupas decotadas). Depois de tudo isso, você acredita que eu estava de casamento marcado com ela? E que faltava apenas uma semana para que nos uníssemos supostamente para o resto de nossas vidas? Pois bem, acredite. Meu terno já estava quase pronto, necessitando apenas de alguns ajustes aqui e ali. Os convites? Estes já deviam estar, há duas ou mais semanas, repousando sobre as mesas, escrivaninhas e criados-mudo das casas de nossos amigos e parentes.
O que me fez gostar dela? Até hoje não sei responder a essa pergunta de maneira precisa. Sei lá, ela tinha um cheiro - que não era de perfume ou pó compacto - que me fazia palpitar inteiro. E conseguia sublimar naquela estranha beleza impressionista, borrada em mil cores, indefinida de traços, olhos, boca, nariz. Lia Kafka usando meias brancas e bebendo litros de Coca- Cola. Um charme... Fazia o melhor café do mundo. E fazia uma coisa que me tirava do prumo: gostava de sentar encolhida no banco do jardinzinho de sua casa, enquanto rabiscava - imitações de desenhos - coisas que via na rua: carros, pés, flores. Não dava pra dizer que desenhava bem, mas... Desenhava bem, entende? Como eu a amava... Enquanto rabiscava em seu caderninho, eu escrevia meus pensamentos soltos, sem ao menos enxergar o curso das frases. Já escrevo por intuição, confiando em minha coordenação motora de arquiteto. O fato é que adorava quando ela lavava os cabelos. Como adorava... Esse negócio de escrever sem enxergar... Já estou até me acostumando, porque tinha decidido não correr mais o risco de me decepcionar com a feiúra dela e não colocava os óculos quase nunca. Amá-la no escuro era a melhor das coisas: ela, a serpente horrenda e eu, possuído pelo desejo de Psique, a amando sem nem sequer sabê-la. Essa necessidade de viver na escuridão era cada vez mais urgente: era no escuro que eu conseguia senti-la bela, perfeita, suave. É... E daqui a algumas semanas, me caso com uma das mulheres mais feias que eu já vi em toda a minha curta vida. A mulher que eu mais amei. Tinha que fazer o que estava pensando há meses. Era a única chance de abraçar a felicidade inteira, dando até pra tocar as pontas dos dedos de tão segura que ela estaria em meus braços.
Nessa noite em que eu me decidi por fazer o que estava pensando, um friozinho fino enlaçava minhas canelas. Eu tinha passado a tarde toda com ela, seus cabelos molhados e seu caderninho de rabiscos. Levantei-me da cama e fui até o meu atelier. Dei uma última olhada nas plantas que estavam abertas por sobre a prancheta: projeto de um prédio novo, no centro da cidade. Eu era um arquiteto conceituado, tinha um bom traço e ganhava bem. Seria capaz de desenhar até de olhos vendados, como dizia minha mãe. Por isso, o que eu estava querendo naquela noite... Não iria me fazer falta, eu aprenderia a me virar no escuro - coisa que já estava fazendo há algum tempo, era bem verdade.
Cheguei mais perto da mesinha e acendi a luminária. Observava todas as sombras vomitadas pelos milhares de objetos que enchia a sala: estantes, cadeiras azuladas, quadros de arte moderna, daqueles bem coloridos. Era a última vez que veria aquilo tudo. Tirei os óculos e os joguei na lata de lixo. E me dirigi à escrivaninha. Nela, canetas, lápis, réguas. Nada disso era suficientemente eficaz para o que eu queria fazer a não ser...
O compasso! Era ele, era ele. Decidido, tomei-o em minhas mãos, que, acreditem, não estavam vacilantes. Apenas um golpe. E lá se foi a visão do olho direito. Outro na mesma medida para o esquerdo. Uma dor filha da mãe, misturada com um ardor imensurável. Fechei os olhos e deitei, enquanto tudo o que havia de líquido em meu corpo parecia minar dos buracos recém-feitos. E a cegueira veio preta e imensa quando tornei a levantar minhas pálpebras moles. Todas as luzes do mundo estavam apagadas.
Eu fiquei lá no chão por um bom tempo, imerso no que mais parecia um imenso caldeirão. Nada, não via absolutamente nada. Tudo negro, do jeito que eu queria. A agonia do começo desapareceu logo. O que aconteceu depois não precisa ser lá muito detalhado: amigos e parentes inconformados e cheios de piedade, ela perguntando "por quê?", inconsolada, inúmeras tentativas em vão de se recuperar o estrago etc., etc., etc. Depois de todo esse ritual pós-tragédia, quando eu já tinha me acostumado a sentir e a cheirar as coisas, experimentei a maior das felicidades: amar, todos os dias, a mulher mais linda que já tinha aparecido em minha vida.
Amar cegamente.
Já fazia quatro anos que namorávamos. Parece brincadeira, mas eu nunca colocava os óculos quando estava com ela. Com isso, só via seus contornos, misturados todos num imenso borrão, algo que acabava parecido com um quadro impressionista. Tudo porque ela era feia. Tinha lá seus atributos: seios e pernas. Mas o rosto era de uma feiúra que nem todos os seculares segredos de maquilagem femininos podiam salvar. Sua feiúra de Quasímodo convergia os músculos de toda e qualquer face em caretas grotescas. Era incidir os olhos nela por mais de trinta segundos e o susto vinha na certa.
O nariz tomava quase toda a face. Além de encurvado, se esparramava no nível das narinas, tomando boa parte do espaço das bochechas. Tinha algumas sardas, mas não daquelas que, geralmente, dão ares angelicais ao seu possuidor. Eram como respingos de lama marrom-escura, grandes e disformes, espalhadas nas maçãs do rosto. As sobrancelhas grossas eram bonitas, se não funcionassem como uma espécie de bainha mal feita que costurava o pé-de-testa miúda que ela tinha. As orelhas normais não apareciam por causa dos cabelos soltos.
O corpo não era nem feio, nem bonito. Mas havia os seios e as pernas. Algumas espinhas gordas e amarelas salpicavam as costas brancas, o que a deixava incomodada (raramente a via com roupas decotadas). Depois de tudo isso, você acredita que eu estava de casamento marcado com ela? E que faltava apenas uma semana para que nos uníssemos supostamente para o resto de nossas vidas? Pois bem, acredite. Meu terno já estava quase pronto, necessitando apenas de alguns ajustes aqui e ali. Os convites? Estes já deviam estar, há duas ou mais semanas, repousando sobre as mesas, escrivaninhas e criados-mudo das casas de nossos amigos e parentes.
O que me fez gostar dela? Até hoje não sei responder a essa pergunta de maneira precisa. Sei lá, ela tinha um cheiro - que não era de perfume ou pó compacto - que me fazia palpitar inteiro. E conseguia sublimar naquela estranha beleza impressionista, borrada em mil cores, indefinida de traços, olhos, boca, nariz. Lia Kafka usando meias brancas e bebendo litros de Coca- Cola. Um charme... Fazia o melhor café do mundo. E fazia uma coisa que me tirava do prumo: gostava de sentar encolhida no banco do jardinzinho de sua casa, enquanto rabiscava - imitações de desenhos - coisas que via na rua: carros, pés, flores. Não dava pra dizer que desenhava bem, mas... Desenhava bem, entende? Como eu a amava... Enquanto rabiscava em seu caderninho, eu escrevia meus pensamentos soltos, sem ao menos enxergar o curso das frases. Já escrevo por intuição, confiando em minha coordenação motora de arquiteto. O fato é que adorava quando ela lavava os cabelos. Como adorava... Esse negócio de escrever sem enxergar... Já estou até me acostumando, porque tinha decidido não correr mais o risco de me decepcionar com a feiúra dela e não colocava os óculos quase nunca. Amá-la no escuro era a melhor das coisas: ela, a serpente horrenda e eu, possuído pelo desejo de Psique, a amando sem nem sequer sabê-la. Essa necessidade de viver na escuridão era cada vez mais urgente: era no escuro que eu conseguia senti-la bela, perfeita, suave. É... E daqui a algumas semanas, me caso com uma das mulheres mais feias que eu já vi em toda a minha curta vida. A mulher que eu mais amei. Tinha que fazer o que estava pensando há meses. Era a única chance de abraçar a felicidade inteira, dando até pra tocar as pontas dos dedos de tão segura que ela estaria em meus braços.
Nessa noite em que eu me decidi por fazer o que estava pensando, um friozinho fino enlaçava minhas canelas. Eu tinha passado a tarde toda com ela, seus cabelos molhados e seu caderninho de rabiscos. Levantei-me da cama e fui até o meu atelier. Dei uma última olhada nas plantas que estavam abertas por sobre a prancheta: projeto de um prédio novo, no centro da cidade. Eu era um arquiteto conceituado, tinha um bom traço e ganhava bem. Seria capaz de desenhar até de olhos vendados, como dizia minha mãe. Por isso, o que eu estava querendo naquela noite... Não iria me fazer falta, eu aprenderia a me virar no escuro - coisa que já estava fazendo há algum tempo, era bem verdade.
Cheguei mais perto da mesinha e acendi a luminária. Observava todas as sombras vomitadas pelos milhares de objetos que enchia a sala: estantes, cadeiras azuladas, quadros de arte moderna, daqueles bem coloridos. Era a última vez que veria aquilo tudo. Tirei os óculos e os joguei na lata de lixo. E me dirigi à escrivaninha. Nela, canetas, lápis, réguas. Nada disso era suficientemente eficaz para o que eu queria fazer a não ser...
O compasso! Era ele, era ele. Decidido, tomei-o em minhas mãos, que, acreditem, não estavam vacilantes. Apenas um golpe. E lá se foi a visão do olho direito. Outro na mesma medida para o esquerdo. Uma dor filha da mãe, misturada com um ardor imensurável. Fechei os olhos e deitei, enquanto tudo o que havia de líquido em meu corpo parecia minar dos buracos recém-feitos. E a cegueira veio preta e imensa quando tornei a levantar minhas pálpebras moles. Todas as luzes do mundo estavam apagadas.
Eu fiquei lá no chão por um bom tempo, imerso no que mais parecia um imenso caldeirão. Nada, não via absolutamente nada. Tudo negro, do jeito que eu queria. A agonia do começo desapareceu logo. O que aconteceu depois não precisa ser lá muito detalhado: amigos e parentes inconformados e cheios de piedade, ela perguntando "por quê?", inconsolada, inúmeras tentativas em vão de se recuperar o estrago etc., etc., etc. Depois de todo esse ritual pós-tragédia, quando eu já tinha me acostumado a sentir e a cheirar as coisas, experimentei a maior das felicidades: amar, todos os dias, a mulher mais linda que já tinha aparecido em minha vida.
Amar cegamente.
"Em nome de Deus,
para todos aqueles que se tornaram corpos sem vontade própria
eu lhes darei a paz eterna.
Amém."
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